A ilusão do Eu.
- brunocezarf
- 31 de mai. de 2024
- 9 min de leitura
"É preciso acreditar que somos do jeito que pensamos ser, afinal sempre foi assim que nos conhecemos. Que outra forma existe?"
Armando Correa de Siqueira Neto*
Escrito por Bruno Franco 15 de agosto de 2018
É preciso acreditar que somos do jeito que pensamos ser, afinal sempre foi assim que nos conhecemos. Que outra forma existe? Quem disse que podemos ser outra coisa que não exatamente o que somos? É possível eu não ser como me imagino? Ou as pessoas são como são, e impossível seria ser diferente? Não nos reconheceríamos, não seríamos nós?
Mas é preciso desacreditar também...
Quem garante que o que pensamos e fazemos todo dia vêm somente do eu aparente, e não de outro pedaço dentro de nós, que sequer desconfiamos existir? Um lado que pode estar lá, de modo silencioso realizando automaticamente (lembre-se dos instintos) um punhado de coisas contra as quais já levantamos suspeita vez por outra, qual a persistente repetição de “erros” normalmente afetivos e emocionais que nos levam a esperar pela realização de uma dada fantasia que nunca se realiza, e que até já avaliamos tal impossibilidade à luz da razão. Sou eu mesmo a me lançar nesse jogo de resultado frustrante, cheio de raiva e de torturante tristeza? Se já sei que o caminho é falso, que razões me levam a me manter nele? E o que dizer de “escolhas” profissionais influenciadas profunda e imperceptivelmente pelos pais? Quantos comportamentos dos nossos pais (de novo!) repetimos alegando serem eles legitimamente nossos quando somos confrontados por um observador externo atento? Nós percebemos o fluxo no qual prosseguimos por forças alheias à nossa própria? E, no entanto, desviamos a nossa atenção, deixando pra lá os insolúveis mistérios. Por que não pensamos seriamente a respeito? Do que fugimos ao não entrar em contato mais profundamente conosco? Afinal, não estamos convencidos de que somos o que somos pelo que sempre percebemos a vida toda? Acaso tememos encontrar algo além do eu tão avidamente entendido como único? E se há mais de nós em nós mesmos, apenas com aparências e funcionalidades diferentes daquelas que conhecemos superficialmente?
O eu inconsciente?

E se considerarmos outros aspectos na reflexão sobre se somos mais do que o eu que conhecemos em nós? Que tal a ideia de inconsciente, uma porção psicológica (amplamente estudada pelo fundador da Psicanálise, Freud) que tenta resolver as questões, sobretudo as emocionais, que a consciência não consegue lidar bem: certas decisões que de tão pesadas nos colocam contra a parede do medo, levando-nos a protelá-las, e de cuja resposta só Deus sabe quando a teremos. Há inconsciência acerca de alguns processos internos conforme é possível verificar adiante.
O organismo autônomo
E alguns funcionamentos orgânicos (respiração, digestão, ajustes hormonais, reprodução celular e seus reparo e revisão dos filamentos de ADN no início do processo denominado ‘Mitose’, defesa imunológica a micro-organismos invasores, etc) que nem prestamos atenção, e mesmo assim, nas adequadas condições, agem sem qualquer autorização consciente de nossa parte, apenas trabalham, quais desconhecidos dentro de alguém que se julga conhecido de si mesmo. Não é irônico?

Poderosas influências sociais
Mais: é possível levar em conta, ainda, as forças invisíveis sociais que nos arrastam aos mais pitorescos (por vezes perigosos, se apontarmos a estética que rouba ricos nutrientes em troca de empobrecidas silhuetas quase cadavéricas) comportamentos de ajuste, mesmo que muitos teimem em afirmar o contrário: Sou o que sou, e não sigo nenhum modismo, não sou escravo do que a sociedade diz! Entretanto, não somos reféns do já conhecido espetáculo social? E quanto aos carros? Não são mesmo um símbolo de poder divulgados pela mídia, e quem os dirige não se sente poderoso ao ponto de a autoestima elevar alguns números no ranking da aparência, qual proposto pelas propagandas (estas já observadas ao longo do tempo desde o começo do Século XX, através dos conceitos de Edward Bernays (1891-1995), sobre a irracionalidade e manipulação das pessoas)? Quem admite tal observação? Não! Compro carro para transporte somente, defende-se aquele que não precisaria se preocupar com defesa, haja vista achar que o seu eu não faz parte de uma suposta estrutura maior.
Os silenciosos conflitos e a psicopatologia
Ainda: como iluminar a obscura incompreensão que paira sobre certos males que assolam a população: depressão, pânico, obsessões e compulsões, anorexia, etc, sem considerar um lado imperceptível dentro de nós, capaz de criar tais doenças em razão de conflitos mal resolvidos (dentre outros fatores), provocando-nos a encontrar uma solução. Então, ainda que não enxerguemos, não é brilhante a natureza, dotando-nos de tal mecanismo que visa proteger (ao estimular os ajustes necessários), consequentemente, a informação genética que precisa ser salvaguardada e transmitida às gerações seguintes?
A força genética por trás dos bastidores
E os genes herdados, a propósito, não fazem parte de um lento e colossal processo evolutivo que gerou aperfeiçoamento adaptativo? Não somos influenciados por tantas e profundas informações de longa data (combinadas com o ambiente), a ponto de nos faltar o tal controle baseado no eu, que tanto afirmamos existir sem qualquer cerimônia? Por ventura os rompantes agressivos que saltam de dentro de nós ocasionalmente não fazem parte da nossa natureza animal (inclua-se a parte do cérebro primitivo existente), levando-nos a uma tentativa de maquiá-la com as mais absurdas justificativas? Não é a inveja tão odiada por nós quão persistente em aparecer em nossas próprias bocas quando afirmamos que certas pessoas são infelizes, burras, medrosas, levianas, feias, justamente quando os seus sucessos nos incomodam a ponto de nos voltarmos tanto para elas com empenhada crítica ferina? Cativar outrem e obter certo controle sobre a situação para atender a necessidades pessoais não é designado convenientemente como troca de favores ao invés de manipulação? Mas como reconhecer os fatos se vemos o que queremos ver apenas?
As relações amorosas de “livre” escolha

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